Uma dose saudável de cuzonismo
Sobre procrastinação, o eu bonzinho e firmar o pé
Eu gosto de pensar que sou uma pessoa aventureira, que estou aberto às mudanças e que a novidade traz um sabor à minha vida. Mas a verdade é que não demora muito, um evento inesperado acontece, acabo super ansioso e isso atrapalha bastante.
É claro que nem toda mudança é igual.
Tem os eventos menores, como o café acabar, você ter que ir na loja de materiais de construção pra consertar alguma coisa ou precisar ir ao médico. Esses são só inconvenientes. Eles são chatos, mas fazem parte da nossa existência.
A questão maior surge quando os eventos abalam as estruturas da vida. O proprietário pedir o imóvel de volta, você perder o emprego de repente ou bater o carro de um jeito grave. Quando você percebe, não consegue fazer outra coisa a não ser lidar com aquilo.
De um jeito ou de outro, tudo isso costuma abalar a base do trabalho criativo: a rotina.
Passo muito tempo pensando a respeito da consistência. Manter a roda girando quando você tem toda uma vida ao redor é um desafio gigantesco, mesmo quando não tem nenhuma situação grandiosa rolando. A verdade é que no nosso contexto atual, as distrações vêm por todos os lados. E mesmo se você tem o privilégio de se isolar completamente em uma sala para nunca ser interrompido, os obstáculos internos aparecem pra mostrar que o buraco é muito mais embaixo.
Por mais que muita gente demonize a rotina como sinal de que o tédio vai se instaurar, ela nos dá um senso de segurança. Não tem coisa melhor do que acordar e saber que vai dar tudo certo, que você não precisa se preocupar. É pra isso que a rotina serve, ela traz essa paz em um mundo que constantemente puxa o nosso tapete.
No que diz respeito à vida criativa, noto como uma boa parte da aflição vem justamente do “não sei como manter consistência” ou “como faço pra postar toda semana” e variações disso — tenho uma caixa de e-mails para provar.
A questão é que vejo muitas soluções focadas em anotar coisas no calendário, definir horários e escrever listas de tarefas, quando existem problemas muito maiores envolvidos.
Perdi a conta de quantas vezes eu comecei um novo caderno, com a esperança de que dessa vez, tudo seria diferente e eu finalmente encontraria o sistema perfeito. Então, lá ia eu começar a fazer listas, até que eu descobria que existia um universo de pintura com aquarela e mergulhava naquilo pelos próximos dois meses, sem sequer lembrar que precisava focar no projeto que eu tinha antes.
Não sei quantas pessoas se identificam com isso, mas meu foco vem em ondas. Muitas vezes sou arrebatado por um assunto e não consigo pensar em outra coisa. Se não existe uma configuração de rotina que permita que eu explore meu interesse do momento, a tendência é que eu fique estagnado. Nem faço o que eu tinha me proposto e nem persigo o novo interesse.
Dizem que isso é procrastinação. Eu não sei, sinceramente.
O que eu sei é que procrastinação é o terror dos coaches de produtividade, como se fosse sinônimo de preguiça ou falta de caráter. Mas acho que a coisa é mais complicada do que isso.
Existe uma ideia que me fez pensar bastante, a de que a procrastinação é uma tentativa de regulação emocional. Ou seja, quando a gente evita uma tarefa, raramente é só por falta de organização ou responsabilidade. É mais provável que aquela tarefa tenha algum peso. E, junto com isso, as vozes da cabeça começam a sussurrar por meio de sensações sutis aquelas emoções que a gente não fala. Medo de não ser bom o suficiente, de se expor, de falar pro vazio.
E aí a gente aceita qualquer desculpa pra não encarar isso. Seja que o texto ainda não está bom, que a inspiração teve outro compromisso ou que a torneira da cozinha está pingando. Ou seja, a dor daquela outra coisa é menor do que dessa que eu realmente gostaria de fazer.
Entender isso não resolve a questão inteira, mas ajuda a pensar no problema certo. O que, obviamente, facilita na hora de pensar em alguma solução.
Eu não sei como é com a maioria das pessoas, mas no meu caso, muito da sensação de que não tenho tempo vem da minha incapacidade de dizer não.
Quando alguém me busca querendo a minha presença ou a minha ajuda, dificilmente eu digo que não posso agora. Por um lado, sim, é muito legal pensar que estou disponível para os outros e que as pessoas podem contar comigo. Por outro, o preço disso é eu cortar qualquer previsibilidade e colocar minhas necessidades em segundo plano. No final do dia, eu vou dormir frustrado por não ter conseguido fazer minhas coisas.
Esse “eu bonzinho” que sempre quer estar disponível, na prática, é inimigo do meu trabalho criativo. E, quando paro pra pensar, ele nem é tão nobre assim.
Lembro da época na qual eu era mais presente na cena musical. Sempre existe aquele artista mais badalado da cidade. O que é curioso é que eu já notei como outros artistas e pessoas próximas julgam essa figura. Frequentemente pipocam as fofocas dizendo que fulano é cuzão, isso e aquilo, porque ele não quis ir no aniversário de alguém, não ficou conversando depois do show, não ajuda os outros... É claro que a gente não quer ser assim. Mas acho que hoje eu vejo diferente.
É necessário um nível de cuzonice para manter a sua rotina criativa, o seu foco.
E eu nem estou falando de nada absurdo, basta ter uma direção própria, um momento seu que seja inegociável. Então, quando alguém chamar, você só diz que agora não e aceita que, talvez, aquela pessoa saia da conversa descontente.
Nota: incrível como é fácil falar, mas absurdamente difícil na prática.
O ponto é que uma dose saudável de cuzonismo é exatamente o que vai garantir a execução dos seus projetos. O cuzão, se olhar bem, nem é cuzão. Ele só está protegendo o trabalho dele.
Anota aí: proteger a rotina é proteger a nossa capacidade de criar.
Estou uma vida inteira pensando nesse tema, tentando, falhando e recomeçando. E, dentro das minhas limitações, a real é que é preciso firmar o pé. As pessoas nunca vão parar de precisar da gente. O Instagram não vai parar de tornar o feed mais viciante. O corpo vai cansar, a torneira vai estragar. Sempre vai ter algo pra fazer em outro lugar.
A gente pode até dourar a pílula, entender as causas, olhar para as nossas emoções e tudo mais. Porém, por mais que doa admitir, o que vai contar é sentar e escrever, pintar, tocar, estudar.
Dentro disso, a gente não sabe se vai ter o privilégio da criatividade daqui a um ano ou dois. Pode acontecer um acidente, uma doença ou qualquer outra coisa que mude totalmente o foco. E, caso isso aconteça, eu peço que você se dedique e se sinta livre da obrigação de criar porque a internet fica dizendo que isso é um dom divino que não pode ser desperdiçado. Mas enquanto isso, também gostaria de dizer que, se você carrega dentro de si essa coceira que não passa nunca, essa voz que fica chamando… corta um tempinho de algo no seu dia e só vai.
O importante é que seja o mais próximo possível de “todo dia”, porque quanto mais você exercita esse músculo, mais fácil é começar. Mais fácil você vai entrar no clima e as coisas vão acontecer. Ao final de uma semana, se você coletar notas e rabiscos que foi acumulando, vai ter o que costurar. Confie em mim, vai funcionar. É assim que eu faço. E é assim que vejo gente com muito mais pratos pra equilibrar também dando conta.
Por que, vale lembrar, você também importa.
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A gente costuma associar a criatividade com fluxo, com dizer sim, mas, como vc bem pontuou, precisamos de muitos nãos para delimitar nosso tempo-espaço de trabalho. Adorei a reflexão!
Adorei o tom desse texto. Foi como uma conversa caminhando junto com você pelo parque. 😊