“Você tem que fazer um TikTok, cara.”
Volta e meia escuto uma variação dessa frase.
E é compreensível.
Hoje, o conteúdo curto está por toda parte. Tanto que parece impossível ter um projeto de conteúdo que não inclua, em especial, os vídeos curtos.
Ou seja, não é exagero dizer que existe um consenso de que o conteúdo curto é o que “engaja”.
E os dados meio que confirmam isso.
A pesquisa State of Create, do Patreon, mostra que 61% dos respondentes passa mais tempo consumindo conteúdo curto. Pra trazer uma informação mais localizada, tem também o fato de que o TikTok é a rede social onde os brasileiros passam mais tempo, com uma média de 30 horas mensais.
No entanto, essa “certeza” sobre o conteúdo curto já vem sendo desafiada. O ponto é que views e likes nem sempre se traduzem naquilo que importa.
A mesma pesquisa feita pelo Patreon traz uma ótima evidência: quando perguntados sobre qual tipo de conteúdo eles estão mais inclinados a pagar, 49% dizem que é o conteúdo longo, contra 29% do conteúdo curto.
Então, existe uma grande diferença entre alguém que para de scrollar por 3 segundos pra ver um vídeo e alguém que efetivamente se converte em cliente, assinante ou fã.
E é exatamente essa diferença que vem começando a quebrar o reinado do conteúdo curto.
Índice
“Mas, Luri, as pessoas não têm mais atenção pra conteúdo longo”
Conteúdo profundo: o contra-movimento que está ganhando força
Como o conteúdo curto se tornou o padrão nas redes sociais?
Bem, é possível traçar a origem do conteúdo curto até o momento quando a humanidade começou a se comunicar. Nós não começamos compondo a Nona Sinfonia de Beethoven, que tem uns 70 minutos. Nossa comunicação, antes, era mais parecida com rabiscos e bilhetes. Ou seja, produzir pedacinhos de arte para baixo investimento de tempo não é exatamente algo novo em si mesmo.
Mas no universo digital, o conteúdo curto chegou quebrando paradigmas.
Pense, um dos grandes apelos da infância da mídia digital era o fato de que os limites de espaço impostos pela mídia física se tornavam irrelevantes. Você poderia distribuir e copiar o que quer que criasse de forma praticamente instantânea.
A internet, então, prometia liberdade absoluta. O formato em si não importava. Se você fosse capaz de escrever um novo “Cem Anos de Solidão”, não era o papel que ia te frear.
Blogs possibilitavam ensaios infinitos. Vídeos e músicas poderiam ter qualquer duração. Fóruns acomodavam discussões que se estendiam por meses. Era a democratização da publicação.
O único limite estava na velocidade de transferência de dados — que era horrorosa, aliás.
Naturalmente, com o tempo, os formatos mais curtos foram ganhando vez. Uma das primeiras estratégias para fazer com que um blog/fotolog se tornasse popular era postar todos os dias — é estranho comentar como se isso fosse algo profissional, considerando que era um bando de adolescentes de 14 anos enveredando pelo emo que postavam a maioria do conteúdo que circulava nesses meios. Mas, no que diz respeito ao formato, essa necessidade moldou o conteúdo para algo mais direto e curto. Todo dia, você ia lá olhar o que seu crush tinha publicado.
O Twitter surge em 2006 com uma proposta ainda mais radical que, até então, era chamada de microblogging. Ou seja, “você tem 140 caracteres, se vira aí”.
Desde então, a internet nunca mais foi a mesma. Concisão, imediatismo e gratificação instantânea se tornaram a regra.
Com o Twitter, começa a proliferação de memes, a ideia de acompanhar eventos de forma imediata, a ascensão da ironia como principal tom da comunicação, os “fios”, entre vários outros padrões que, hoje, nem sabemos de onde veio.
Depois, outra revolução veio com um pequeno app chamado Vine. Você tinha apenas 6 segundos para seus vídeos. Um contraponto ao Youtube, que tinha como característica um teto de 10 minutos. Mesmo considerando que no Youtube a média era criar vídeos na faixa dos 5 minutos, o Vine tinha uma proposta extrema.
Apesar da inovação, o Vine não durou tanto, mas criou uma escola.
Hoje, os vídeos curtos estão por toda parte. O TikTok é a principal responsável por essa proliferação, que chegou ao Instagram, Youtube, LinkedIn e até aqui no Substack. Todo mundo querendo um pedacinho do principal efeito que o conteúdo curto gera: a captura da atenção de milhões de pessoas.
Sai a timeline, entra o feed: competindo por atenção
Outro momento importante da história da internet foi quando essas mesmas redes saíram do formato de timeline e entraram na era dos feeds curados por algoritmos.
Isso mudou totalmente a forma como o conteúdo era criado e consumido. De repente, não bastava mais criar e lançar algo que agradasse seu público. Uma nova entidade mística entrou no caminho e, a partir daquele momento, você tinha que fazer oferendas a ela. E aí, caso ela não ficasse alegre, sobraria chorar no canto, relegado à sua insignificância.
Ok, talvez não fosse exatamente assim, mas essa foi uma mudança técnica e estrutural importante. Os algoritmos passaram a premiar o que é mais clicável, mais palatável e mais chamativo.
A competição por atenção foi ficando mais acirrada. Então, passamos a ter um cenário parecido com o que temos hoje. O que realmente importa, nessa forma de operar, é se destacar em meio à multidão de pessoas, empresas e (agora também) IAs gritando “olha pra mim”.
Nesse cenário, o conteúdo longo se tornou um risco. Errar em algo que demorou muito tempo para ser feito e também vai custar bastante para ser consumido gera um prejuízo grande. Produzir conteúdo curto permite que o criador “pule” na frente do público mais vezes, aumentando a sua exposição. Para o público, é uma entrada de baixo esforço cognitivo. É fácil de começar e, se você não gostar, não perdeu muita coisa.
Então, não é como se o conteúdo curto fosse totalmente horrível, ele tem sua razão de existir.
E toda uma economia surgiu a partir do crescimento dessas redes sociais que trouxe vantagens para empresas, criadores e também pro público.
Mas também não dá para negar os vários problemas que vieram dessa escolha de design.
Efeitos negativos do conteúdo curto em larga escala
De um modo geral, tem um monte de gente que diz que a internet está te deixando menos inteligente.
O Financial Times divulgou um estudo que mostra que independente da idade, muita gente vem sentindo mais dificuldade para se concentrar, pensar com clareza ou até pra resolver problemas. Segundo o site Futurism, os pesquisadores chegaram a essa conclusão a partir de testes de benchmarking que avaliam as habilidades cognitivas de adolescentes e jovens adultos todo ano desde os anos 1980.
Aparentemente, essa tendência começou na década de 2010 e ficou mais forte depois da pandemia. É claro que é complicado pegar um problema dessa complexidade e dizer que essa é a única causa, mas é difícil fugir da hipótese de que a obsessão por conteúdo curto combinada com a rolagem infinita, em algum grau, prejudica indicadores de inteligência das pessoas.
Além disso, há evidências de que os aplicativos de redes sociais podem causar a liberação de grandes quantidades de dopamina nas vias de recompensa do cérebro de uma só vez, de forma similar a heroína, metanfetamina ou álcool.
No pior dos casos, o vício em redes sociais tem sido associado a uma série de problemas emocionais, relacionais, de saúde e de desempenho. E, também, pode levar a estresse, pressão para se comparar com outros e aumento da tristeza e isolamento.
A insustentabilidade do modelo atual: criadores em burnout
No que diz respeito aos criadores, o conteúdo curto também trouxe efeitos adversos importantes.
Em primeiro lugar, as plataformas passaram a exigir uma produção de conteúdo cada vez maior, tanto em quantidade quanto em valor de produção. De cara, a vida útil do conteúdo se reduziu, obrigando que criadores publicassem quantidades cada vez mais absurdas. Pra dar uma noção, já houve um tempo em que os gurus pregavam que você tinha que postar 3 vídeos por dia ou mais.
Pela mera força da concorrência pela atenção, a produção passou a ser cada vez mais demandante. Basta comparar o conteúdo comum de 2025 com o que era em 2020 e fica bem claro como é necessário muito mais recurso de iluminação, cenário, enquadramento, texto e edição do que era a norma antes.
Outro efeito colateral foi o fim da intimidade entre criador e público. As mudanças de design das plataformas foram acabando com a importância do "seguir". Hoje, você pode ter milhões de seguidores, mas apenas uma fração deles vai ver seu conteúdo. Ou seja, é o algoritmo que decide quem merece sua atenção.
Isso criou uma relação bizarra onde os criadores precisam "seduzir" o algoritmo, não o público. O resultado são vídeos que parecem feitos por robôs para robôs, com thumbnails exagerados, títulos sensacionalistas e hooks desesperados nos primeiros 3 segundos.
É como ter que alimentar um monstro que tem fome infinita e está cada vez mais exigente.
Não é surpresa que o burnout entre criadores de conteúdo seja tão comum. Um estudo publicado pela Tasty Edits com 29.000 criadores de vídeo no YouTube, TikTok e Instagram, mostra que 79% dos criadores tiveram alguma forma de burnout. Esse número salta para 83% entre criadores que monetizaram seu conteúdo e estão tentando manter ou aumentar sua renda online.
Além disso, segundo a pesquisa State Of Create, 75% dos criadores dizem que as plataformas punem quem não está constantemente criando. Ou seja, quando sua relevância depende de produzir constantemente, descansar se torna um luxo que você não pode se dar.
O pior é que, mesmo produzindo compulsivamente, a sensação de realização é cada vez menor. Criar algo que dura 30 segundos e vai sumir no dia seguinte não oferece a mesma satisfação de criar algo duradouro e significativo.
E se eu usar IA pra ajudar na produção de conteúdo?
Pois é, né…. não dá pra ignorar que ela tá aí.
Considerando as implicações da produtividade constante na saúde mental dos criadores, é óbvio que uma ferramenta que faz o trabalho pesado da produção de conteúdo seria atraente pra muita gente.
Porém, com o perdão aos devotos da IA, a percepção de que a IA produz conteúdo de baixa qualidade só aumenta.
O termo “AI slop” circula nos comentários da internet gringa e, se antes, era usado para definir conteúdos mal-feitos utilizando IA, agora as pessoas estão usando o termo pra tudo que é feito com IA.
Aqui no Brasil ainda não vejo tanto, mas acho que essa onda vai chegar.
O Youtube, por exemplo, passou a tomar medidas para dificultar o uso de IA, se preparando pra alterar as políticas pra restringir a capacidade dos criadores de gerar receita com conteúdos considerados “não autênticos” — incluindo vídeos produzidos em massa e outros formatos repetitivos, que se tornaram mais fáceis de criar com o uso de inteligência artificial.
Existe uma pesquisa que mostra que a percepção de que algo foi gerado por IA tem o potencial de colocar aquele material num local de menos “bonitas”, menos “significativas”, o que afeta a percepção de valor. Essa desconfiança perdura mesmo quando o trabalho possui uma qualidade comparável ao feito por um humano, mostrando que a forma como algo é feito tem um papel importante na relação entre criador e público.
Sim, a pesquisa é de 2023 e a tecnologia andou bastante de lá pra cá, mas essa não é a única fonte que aponta na direção de uma perda de valor percebido com o uso de IA.
O uso de IA generativa, de um modo geral, também é associado a escassez de recursos, falta de cuidado na execução e falta de autenticidade. Todas percepções que afetam a confiança e a credibilidade. Inclusive, afetando a disposição de pagar por aquele produto. Um estudo de 2024 descobriu que obras de arte rotuladas como IA foram percebidas como 32% menos criativas e despertaram 41% menos disposição a pagar por aquilo, em comparação com as mesmas obras atribuídas a humanos.
E por que eu estou frisando isso?
Porque o conteúdo curto é especialmente fértil para o uso de IA generativa. As IAs atualmente têm dificuldade com contextos mais amplos, então, é muito difícil gerar um artigo de 2500 palavras de forma decente utilizando IA. Mas algo curtinho com 300 palavras até rola. O problema é que o texto fica com aquela cara de ChatGPT.
Tipo isso aqui:
Vídeos curtos, ilustrações pontuais, um voice over mais genérico… até dá pra fazer (embora possa gerar a perda de valor percebido que citei).
Mas quando você quer uma exploração mais aprofundada, uma conceitualização, um pensamento que realmente conecta ideias de um jeito diferente, daí a IA começa a cair pelas beiradas.
No contexto atual, um conteúdo longo e profundo tem bem menos chances de ter sido só uma troca de prompts. Meu palpite é que as pessoas notam a diferença.
Então, se você vai usar IA no seu trabalho, melhor saber exatamente no que está se metendo. E vou dizer minha opinião: o futuro não parece muito bom para quem opta pela rota fácil.
“Mas, Luri, as pessoas não têm mais atenção pra conteúdo longo”
É uma percepção bem comum, essa de que estamos com a nossa atenção cada vez mais reduzida. A narrativa dominante é de que antes nós tínhamos uma capacidade de foco de 12 segundos e que hoje ela caiu para 8 segundos — menos que um peixinho dourado, que supostamente consegue se concentrar por 9 segundos.
Inclusive, alguns dos links que coloquei aí em cima utilizam essa tese.
O problema é que a origem dessa informação está em um estudo da Microsoft de 2015, que cita de passagem um estudo de uma empresa chamada Statistic Brain. Depois, descobriu-se que a informação foi fabricada e, por acaso, se proliferou por inúmeros estudos. A Dr. Maria Panagiotidi tem um artigo no Substack que fala um pouco disso e como o próprio conceito de “attention span” é difícil de medir.
O estudo da Microsoft em si não media capacidade geral de atenção. O que ele estava observando eram os padrões de engajamento com conteúdo digital pra fins publicitários e, para isso, fazia uma subdivisão em diferentes tipos de atenção. Ou seja, mesmo no estudo original, havia mais nuance.
Um dos principais achados do estudo da Microsoft era que o ambiente digital estava mais propenso a interrupções e, por isso, dificultando a atenção prolongada.
Tanto que mostrava que, em situações onde as interrupções não eram tão proeminentes, os participantes eram propensos a passarem, por exemplo, horas assistindo streaming.
E isso é consistente com a mera observação do cotidiano. Com tanta mídia disponível, as pessoas estão mais exigentes com o quanto algo deve estimular ao ponto de merecer o foco delas. Foi a tolerância que se reduziu. Caso o objeto do foco mereça a atenção, elas são capazes de passar horas realizando a atividade sem maiores problemas, como é o caso quando estão jogando ou assistindo algo que gostam.
O ponto do estudo não era que o conteúdo deveria ser curto para caber na atenção reduzida dos nativos digitais, mas sim, que ele deveria ser formatado de forma a facilitar a tomada de decisão sobre se engajar, por exemplo, fornecendo ganchos claros logo no início, sendo fiel ao tema proposto ou se destacando visualmente.
E isso nos leva de volta ao ponto central: se você criar conteúdo relevante e distribuir nos canais certos, as pessoas vão consumir. A capacidade de atenção do público continua lá. A questão é que ela está sendo disputada por uma quantidade absurda de estímulos e distrações o tempo todo.
Essa é uma distinção importante. Uma coisa é não conseguir se concentrar. Outra coisa é ter um ambiente que ativamente dificulta o consumo de conteúdo que demanda mais foco.
Conteúdo profundo: o contra-movimento que está ganhando força
Quando converso com amigos criadores de conteúdo, existe um discurso quase unânime sobre como produzir todos os dias, girando na rodinha do hamster, é desgastante. Parece que você ganha likes, comentários, elogios… e aquilo não muda nada. É vazio.
Dói admitir, mas no final do dia, ninguém liga se você postou mais de 300 vídeos no último ano. É como se você tivesse um monte de retalhos largados no chão. Aquilo não é sequer uma colcha. Falta a costura, algo que dê sentido e forma ao contexto amplo do trabalho.
É por isso que começa a ser importante ter uma estratégia que contemple entregas que vão além do conteúdo puro de redes sociais.
Imagina um músico. Estar nas redes sociais, obviamente, é indispensável. E muito se falava uns anos atrás que o álbum tinha morrido, que ninguém ouvia. Daí, começou a ter um monte de artista (especialmente os menores, com menos recursos) que investiam apenas em single. O efeito era parecido com o que eu acabei de comentar — como retalhos largados no chão.
No final das contas, ter um álbum se provou essencial no longo prazo. O álbum é uma maneira de contar uma história coerente e se torna um material que pode ser revisitado e retrabalhado inúmeras vezes. Ele é o retrato de uma fase daquele artista e, além de tudo, traz uma sensação de realização. De repente, aquela pessoa não é mais só o Fulano. É o Fulano, autor do disco X.
O mesmo vale para outros tipos de artista. Um escritor sem um livro lançado é bem diferente de um que já sentou a bunda por um ou dois anos pra entregar uma obra fechadinha. Um fotógrafo ou um pintor que tem uma série com um olhar sobre um determinado tema… é diferente. É outro mergulho, marca de uma outra forma.
Essa lógica, aparentemente, também está transbordando para o universo digital.
Mesmo em ambientes mais comerciais, como o dos infoprodutos, é cada vez mais comum a criação de ebooks, aulas, podcasts ou lives, que demandem um maior compromisso como forma de demonstrar valor o suficiente pra gerar conversões.
A força do conteúdo aprofundado
Com tanto conteúdo pulando na nossa frente o tempo inteiro, as pessoas estão começando a pensar que, se é pra parar pra ver algo, é melhor que valha a pena.
E as próprias plataformas parecem estar notando isso.
O TikTok, que é uma rede de vídeos curtos na essência, além de ter liberado a publicação de vídeos de até 30 minutos, também criou uma forma de aproveitar esse conteúdo quebrando em partes curtas, o que é um bom meio termo.
O Google vem, já há algum tempo, mudando a forma como qualifica e ranqueia os conteúdos, priorizando a qualidade e não a quantidade, o que vem recompensando criadores que publicam conteúdo longo.
Uma análise realizada pela Backlinko com 11,8 milhões de resultados de busca descobriu que posts longos tem uma possibilidade maior de ranquear em boas posições. A Backlinko também descobriu que conteúdo longo gera mais links que posts curtos.
Além disso, uma pesquisa da Chartbeat descobriu que o tempo médio de engajamento em artigos aumenta à medida que o tamanho dos artigos se aproxima das 2000 palavras.
Uma pesquisa feita pelo blog Digitalmarketer percebeu que um podcast de conteúdo aprofundado com cerca de 1000 ouvintes tinha um engajamento mais elevado por usuário do que um TikTok curto com 10.000 views.
Algo similar acontece com vídeos. O Youtube favorece o tempo de retenção (watch time) ou seja, quanto mais o seu conteúdo consegue reter, mais ele é favorecido pela plataforma. É comum o conteúdo longo gerar um efeito no qual a pessoa coloca pra assistir e deixa rolando. Assim, o tempo de retenção aumenta muito por clique, o que também amplia o faturamento.
Uma análise rápida que vi no ThinkMedia demonstra bem isso. Em 90 dias, eles obtiveram 7 milhões de views em Shorts com um RPM (faturamento por mil cliques) de US$0,08. Já em 13,5 milhões de views em vídeos longos, eles tiveram um RPM de US$8,15. Cem vezes mais faturamento está bom pra você? ;)
Os sinais indicam que o conteúdo longo e aprofundado é uma via potente pra gerar os tais “resultados” onde importa.
Enquanto os algoritmos premiam frequência e formato, o público que converte premia consistência e profundidade.
Buscando modelos de trabalho mais saudáveis
Os vídeos longos também geram um efeito interessante no qual, mesmo numa rede como o TikTok, permitem que você possa ficar com o criador e entrar no universo daquela pessoa. Uma maneira de aproveitar isso é criando séries, aproveitando um mesmo conteúdo com cortes menores.
Por exemplo, ao invés daqueles vídeos com edições super aceleradas pra caber tudo em 30 segundos, a Vick Lopes encadeia o conteúdo, mostrando receitas mais longas no TikTok.
Normalmente, as pessoas pensam em conteúdo longo e profundo como algo mais filosófico e complicado, mas o Vítor Penço faz algo numa linha vlog de humor, muitas vezes sem corte, que chegam perto do limite de 30 minutos. E vai muito bem, obrigado.
Mais no meio do caminho, tem o Alex Confeiteiro, que grava vídeos da rotina dele na padaria que ele trabalha. A maioria dos vídeos passam dos 6/7 minutos. Tem vídeo com mais de 27 milhões de views — o que eu confesso, me surpreendeu bastante.
Além dos resultados bastante efetivos, o conteúdo longo também é uma ferramenta para não ser engolido pelas demandas cada vez mais altas dos algoritmos.
Recentemente, a Gabi de Pretas publicou um vídeo no Youtube contando sobre sua decisão de parar de trabalhar com outras redes pra focar só no Youtube. Segundo ela, essa seria a sua forma de fugir do excesso de conteúdos curtos que acabam atrapalhando quem consome e quem vive de conteúdo online.
Esses são alguns casos, mas tenho visto o início de um movimento no qual os criadores buscam espaços e plataformas que demandem menos energia de manutenção e que tragam mais satisfação ao trabalho, principalmente considerando a recorrência do burnout.
Eu, aqui, humildemente, me coloco como um criador de textos longos no Substack. Pra mim, essa é a melhor plataforma para escrita e tem um grande potencial. Quem está chegando vem conseguindo montar uma comunidade com um público super disposto a mergulhar e fugir da correria das outras redes.
Como um criador que gosta de mergulhos mais profundos, fico muito contente que agora eu tenha esse espaço pra contribuir da forma como me sinto mais confortável.
O que realmente significa “engajar”
Acredito que um dos primeiros passos para que essa mudança de paradigma se fortaleça é a ressignificação da palavra “engajar”.
Eu acho muito importante não se perder de vista o que esses números realmente medem.
Esse termo, normalmente, se refere aos números relativos a um determinado conteúdo. Seja visualizações, tempo de retenção, comentários ou compartilhamentos.
Porém, o engajamento não é o like ou view. Se alguém deu um like no seu vídeo e esqueceu dele no minuto seguinte, isso é o mesmo que nada.
Com essas métricas, o que se busca medir é o quanto alguém se envolveu. Mas, na maioria das vezes, o engajamento está além do que pode ser quantificado.
O que importa mesmo é como o conteúdo moveu a pessoa emocionalmente, o quanto marcou, o quanto se tornou parte da sua visão de mundo. E, posteriormente, o quanto fez com que a pessoa agisse motivada por aquilo.
Cito um exemplo: a maioria das pessoas que compram meus cursos ou apoiam minha newsletter sequer deram um like nos meus textos. Por essas métricas, esses usuários não teriam engajamento algum. No entanto, dada a forma como essas pessoas se conectaram, houve um impacto profundo, uma relação de confiança que se estabeleceu ao ponto de gerar uma troca financeira.
Nem todo conteúdo só é um sucesso se for um viral com milhares de likes. É importante entender que às vezes, você precisa marcar presença, definir um posicionamento ou demonstrar habilidade. E, principalmente, que é com o tempo que a confiança se estabelece entre público e criador.
O conteúdo aprofundado é uma ferramenta importante nesse aspecto. Com ele, você pode passar mais tempo com as pessoas e gerar impressões mais definidas, duradouras. O que, obviamente, amplia a força da sua relação com sua comunidade.
O amadurecimento da relação com o conteúdo
Apesar do meu clickbait, ainda não dá pra dizer que o conteúdo curto vai deixar de existir. Mas é possível reconhecer que o ecossistema digital vem passando por um amadurecimento.
Depois de anos usando o imediatismo como principal via para a busca por relevância, chega um momento de repensar a forma de se conectar com quem consome o que criamos.
As evidências estão por aí… o público está disposto a investir tempo e dinheiro em conteúdo que atenda aos seus critérios de qualidade. As plataformas estão ajustando seus algoritmos. E os criadores estão migrando pra formatos que trazem mais satisfação criativa e sustentabilidade financeira.
Então, o ponto não é substituir o TikTok ou o Instagram com uma internet cabeçuda. É lembrar que existem várias formas de criar e de se engajar. Pra certos criadores, vai continuar fazendo sentido estabelecer relações breves e leves. Pra outros, vai ser necessário muito mais do que 30s pra convencer, ressoar ou transformar o público. E vai ter aqueles que vão buscar equilibrar as duas abordagens.
Eu acredito que existe uma oportunidade aí. Sinceramente, acho que é bem melhor criar com calma e com profundidade, pelo nosso próprio bem-estar. Mas também porque é sempre maravilhoso cruzar o caminho com quem realmente quer ouvir o que a gente tem a dizer.
Mais do que buscar engajamento pelo engajamento, talvez seja hora de direcionar os esforços e começar a se questionar a razão de tanto trabalho.
Afinal… você quer engajamento pra quê mesmo?
Nota: Ainda estou com uma vaga aberta na minha Mentoria de conteúdo para quem quer iniciar um projeto no Substack, a Ano 1. Que tal contar com a minha metodologia e o meu suporte pra colocar seu conteúdo no mundo? Vamo?




Acho que independente do tamanho, anda dificil encontrar conteúdo de boa qualidade mesmo. O maior acesso à internet, aos cursinhos de marketing, ao mercado gig, tudo isso facilitou a entrada livre de mais pessoas. Mas teve o efeito revés de trazer muita, mas MUITA gente ruim com conviccao que estão fazendo certo pq o algoritmo, num dia especifico, facilitou a vida deles.
Eu acho que a qualidade ruim de textos das redes veio até que antes da IA. Se uma IA está conseguindo bater "no mesmo nivel" da maior parte dos redatores, acho que isso diz mais sobre os redatores do que sobre a IA que é só um copia/cola. Basicamente, o que muitos faziam.
Nao sei sua idade Luri, mas quando eu era mais novo, era preciso garimpar muito na internet p achar algo util. Desde comprar revistas na banca de jornais com catalogo de sites à caçar indicações pelas proprias redes de blogs confiáveis. Na epoca, mal havia conteudo na internet.
Hj está explodindo de conteudo, parece q nada mais eh novo, nada mais eh relevante. Mas a grande verdade é que só voltamos àquele cenario de dificuldade de achar conteudo bom.
A Google e o Twitter, durante o auge, varreram do mapa uma serie de grandes curadores de conteudo, usando os tais dos argoritimus! Agora a conta veio p td mundo: é algoritmo vs algoritmo na superficie da internet
Achar conteudo bom, longo, de qualidade, só com as curadores DE ALGUNS bons Substackers e mais corajosos/teimosos de outras plataformas.
Adorei teu texto e despertou altas reflexões.
Eu espero que de fato essa era de conteúdo Fast Food acabe e que as pessoas percebam que estão perdendo tempo consumindo conteúdos rasos. Por isso acho que até hoje não conseguiram substituir o YouTube, por mais que nessa plataforma tenha também muita porcaria, existem vídeos incríveis. Ainda é a melhor plataforma de aprendizado.