Nota: esse texto também virou um vídeo no Youtube, para quem prefere a rota audiovisual. ;)
Quando vi as imagens dessa câmera pela primeira vez, fiquei encantado pela forma como as flores aparecem nela, como as cores saltam, especialmente o rosa, o amarelo… isso me remeteu a memórias boas, a um tempo cheio de afeto e amor que eu nem sei se já existiu. Mas que, de alguma forma, me dá uma energia, uma vontade de viver, como se essas pequenas situações do cotidiano fossem mesmo tudo que eu preciso pra ser feliz.
Essa bonitinha é uma camcorder da JVC. Ela não é exatamente uma grande ferramenta pra vídeo, como dá pra ver pela baixa resolução e pelas cores estouradas, mas ela tem uma vibe, sabe?
Eu nunca fui de criar vlogs. Em geral, sinto que não tenho muito o que sustentar em termos de narrativa pra fazer isso de forma recorrente. Em bom português, minha rotina é chata, sabe?
Mas essa câmera mudou minha opinião. Ela me fez perceber que nem tudo precisa ser vibrante, ultra-definido. Que a imperfeição e a banalidade do cotidiano pode ser representada de uma forma carinhosa, que transmita a realidade não só pelo que ela é, mas pelo que ela nos faz sentir.
Essa câmera me devolveu o sabor da vida. E, dessa forma, me fez voltar a ter inspiração pra criar.
Eu adorei passar por isso. E agora, fiquei reflexivo, tentando entender o que foi que aconteceu.
Será que foi a câmera? Será que foi outra coisa?
Recentemente, eu tive um período criando vídeos que deram certo, que tiveram uns números legais. Milhares de pessoas viram meu conteúdo, comentaram, compartilharam. Mas, ao invés de me estimular como seria de se esperar, esse sucesso fez o contrário. Eu fiquei super travado, achando que tinha que manter o mesmo nível. Eu queria repetir o resultado. Queria imitar a fórmula, otimizar o processo.
Mas, quando paro pra pensar… acho que eu não funciono assim. No final das contas, precisei fazer uma pausa pra reorganizar as ideias.
E até aí, tudo bem. O problema é que eu não conseguia voltar de jeito nenhum.
E, nisso, os meses foram passando. Já tem mais de 3 meses que eu fiquei na inércia.
Agora, com essa câmera em mãos, eu pude me reconectar com algo super importante dentro de mim. Porque, pra mim, ela não é exatamente uma ferramenta de trabalho — embora seja. Ela atuou mais como um brinquedo novo — e eu me senti como a criança que ganha esse brinquedo.
A baixa definição, as imagens tremidas, o zoom absurdo… tudo isso tira de mim a pressão por performance. Na verdade, ela pede o contrário. Que eu relaxe e brinque de filmar, com naturalidade e curiosidade.
Com ela, o objetivo é explorar o limite do incorreto. Ela me faz sentir que está tudo bem em filmar do jeito que dá, mesmo que seja meio tosco. Porque, com ela, a questão está longe de ser a precisão, o rigor técnico. O foco vira a expressão artística.
E aí que eu me pego sentindo uma coisa estranha. Porque eu vejo que, provavelmente, não foi a câmera que solucionou o meu problema. Na verdade, ela foi só um gatilho.
O ponto central está no encantamento, no interesse irresistível que aparece quando a gente se conecta com uma ferramenta.
O que realmente aconteceu foi uma mudança de perspectiva, de postura.
Eu estava pesado, tenso. Nessa de querer encontrar a fórmula do meu sucesso, eu transformei a minha criação em uma questão de vida ou morte.
Ou seja, minha criatividade virou coisa de adulto.
E tudo bem, eu sei que isso faz parte do processo de se tornar um creator profissional. A gente precisa de um mínimo de seriedade pra conseguir estruturar o projeto, fazer acontecer. Mas pelo visto, tem horas que o remédio é o oposto do que todo mundo fala na internet pra gente fazer.
Ou seja, como eu sou obcecado em ter tudo bonitinho, arrumadinho, bem iluminado… o jeito foi tacar o foda-se pra qualidade profissional e voltar a brincar.
Mas será que isso justifica ter comprado a câmera? Eu poderia usar outra solução, só diminuir a qualidade do vídeo na pós ou algo assim.
Pensando sobre isso, eu eu lembro de uma fala do Umberto Eco que mudou a minha forma de pensar minhas compras artísticas.
Pra quem não sabe, o Umberto Eco é um escritor que, além de ser famoso pelos livros que escreveu, era bastante conhecido por ter uma biblioteca insanamente gigantesca, com mais de 30.000 livros.
E uma das frases que é atribuída a ele diz como ele achava que certas coisas a gente precisa ter em abundância, mesmo que use pouco. Como remédios que você deixa ali sempre prontos pra quando você precisar.
Eu achei essa visão fantástica.
Pensando em como a criatividade é frágil e como estamos tão distraídos, sendo puxados por mil notificações e desejos de mais e melhor, acho bem legal pensar que algo não é só a função que exerce, mas também o tempero que ele adiciona à vida. É essa graça, essa energia que a gente está encapsulando pra tomar quando estiver adoecido.
Então, talvez, o ponto de se permitir comprar uma câmera nova esteja em ter o remédio certo, na hora certa.
Naquele momento, eu estava assim. Um pouco confuso, sem entender quem eu era como criador, sem saber como continuar a criar de uma forma que suprisse minha necessidade de autenticidade. É como se eu estivesse com uma gripe de artista.
Nem sempre a gente precisa do equipamento mais caro, da melhor iluminação, da lente mais clara e mais definida.
Às vezes, o que a gente precisa é só de alguma coisa que faça a gente lembrar do que dá gosto pela vida.
Quer me ver continuar criando?
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longe de mim falar por toda uma geração, mas percebo que meus coetâneos prezam muito mais pela autenticidade e liberdade artística do que pela busca pela perfeição técnica. e enxergo seu conteúdo como muito autêntico, por isso eu gosto tanto ☺️ (mas você também é ótimo tecnicamente, claro)